Uma nova luz sobre a catarata

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Uma nova luz sobre a catarata

O optometrista de Coimbra, Miguel Caixinha, está envolvido no desenvolvimento de uma ferramenta que eleva a cirurgia da catarata para um nível superior. Com o interesse já cultivado entre empresas internacionais de dispositivos médicos, o próximo passo é a patente internacional e a disseminação do dispositivo pela comunidade dedicada à saúde visual.

O novo dispositivo de apoio ao diagnóstico detalhado da catarata causou um forte impacto na comunicação social e entre a comunidade científica. Quanto tempo esteve sob desenvolvimento, quem são os nomes por trás deste projeto e que entidades se envolveram para fazer nascer a nova ferramenta?

O desenvolvimento do protótipo foi resultado da execução de um projeto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) no âmbito do meu doutoramento na Universidade de Coimbra. O tempo total de investigação necessário para a execução do protótipo foi de três anos, considerando o projeto da FCT e mais um ano que o antecedeu para a realização do estudo de “prova de conceito”. Na investigação, estiveram envolvidas além de mim, mais cinco pessoas, quatro docentes do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Universidade de Coimbra e um bolseiro de investigação da FCT. Os docentes foram o professor doutor Jaime Batista dos Santos, professor doutor Mário Santos, professor doutor Fernando Perdigão e professor doutor Marco Gomes. O bolseiro foi o engenheiro João Leonel Amaro. As entidades que apoiaram o projeto foram a FCT e o Centro Cirúrgico de Coimbra. A investigação decorreu no Laboratório de Tecnologia de Materiais e Ultrassons do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, DEEC, no Centro de Investigação em Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, CEMUC (Grupo de Integridade Estrutural da Matéria), da faculdade de Ciências e Tecnologia, e o Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida, IBILI, da faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

O que faz exatamente o novo invento? Como funciona e que material envolve?

Com base num conjunto de caraterísticas extraídas, o protótipo desenvolvido consegue determinar, automaticamente, com um grau de precisão muito elevado e em tempo real, a dureza de qualquer tipo de catarata (ou de um cristalino saudável), o seu grau de severidade e localização exata no cristalino, de forma não invasiva. O dispositivo funciona com tecnologia wireless, e permite que os dados do exame sejam enviados por rede e recebidos, interpretados e visualizados num tablet, PC ou smartphone, por exemplo.  O clínico pode receber o resultado completo do exame no tablet segundos após a realização deste, graças ao hardware e tipo de programação envolvida. A informação da dureza da catarata representa, em ambiente clínico e, em particular, na cirurgia da catarata, uma informação relevante, na medida em que a energia usada na “destruição” da catarata por facoemulsificação se relaciona com a sua dureza, nomeadamente, quando se trata de cataratas densas. Uma vez que algumas complicações cirúrgicas estão ligadas com a estimação desajustada da energia de facoemulsificação, a informação da energia ótima a usar na “destruição” da catarata a extrair representará, naturalmente, uma ferramenta útil de apoio à cirurgia, com vista à minimização dos riscos cirúrgicos de um procedimento que tem níveis de segurança bastante elevados. O objetivo é que a informação resultante do trabalho desenvolvido seja integrada em sistemas comerciais de facoemulsificação.

O trabalho desta equipa apontou à catarata porque razões?

Uma investigação começa sempre pela identificação do problema a resolver e pela formulação de uma hipótese. Da pesquisa do estado da arte de uma das cirurgias oftalmológicas mais realizadas no mundo, foi identificado o problema já referido, e pusemos como hipótese que os ultrassons poderiam caracterizar objectivamente e não invasivamente um cristalino saudável ou com catarata.

Usamos, portanto, a tecnologia de ultrassons para resolver o problema identificado e a hipótese de estudo foi confirmada com sucesso.

O dispositivo estará disponível a todos os profissionais relacionados com a saúde visual ou é exclusivamente médico?

Embora seja ainda um protótipo de um dispositivo médico, o aparelho final estará naturalmente disponível a todos os profissionais de saúde, pois terá uma componente de diagnóstico para uso em ambiente clínico, e uma componente de apoio à cirurgia da catarata  e, aqui, será usado pelas equipas cirúrgicas.

A patente provisória está já assegurada e a disseminação da existência do dispositivo também. Receberam muito interesse por parte de entidades nacionais e internacionais?

Estamos a registar uma patente internacional e, para isso, precisamos de financiamento. Quanto à indústria, já recebemos o interesse de quatro grandes grupos internacionais fabricantes de equipamentos médicos.

Quando pensam tê-lo no mercado disponível para ajudar pacientes com catarata?

Depende muito do financiamento captado para o desenvolvimento das fases que se seguem. É vital que o que ainda temos para fazer seja financiado.

A participação do Dr. Miguel Caixinha nesta equipa deixou os seus colegas optometristas orgulhosos e favoreceu a imagem desta atividade junto de outros profissionais direcionados à saúde dos olhos, certo?

Agradeço o apoio dos meus colegas, mas penso que a optometria não precisa de exemplos como o meu para ficar mais forte, pois nem tem que ficar mais forte ou fraca. A optometria é uma ciência como outra qualquer, que existe e é estudada para resolver problemas às pessoas, e resolve todos os dias com muita eficácia, com o trabalho de colegas que são brilhantes na sua atividade clínica e académica. O fato de ter estudado optometria foi para mim uma mais valia muito grande na realização desta investigação, pelo carácter mais técnico ou tecnológico que tem a ciência em causa. Estou confortável na profissão que desempenho e não lhe encontro fraquezas, qualquer colega meu licenciado está preparado para fazer o que fiz, só precisa de ter capacidade de trabalho e ser persistente. O conhecimento académico não se pode estratificar em especialidades ou subespecialidades, em oftalmologia ou optometria, ou em outra coisa qualquer. O conhecimento académico obedece a critérios de exigência que são conferidos pelas academias onde é adquirido, não tem  graus ou hierarquias quando está em causa a comparação de disciplinas. Tanto a oftalmologia como a optometria são estudadas nas academias, têm naturezas diferentes, são desempenhadas por profissionais com formações e treinos diferentes, mas têm um fim comum: a saúde visual das pessoas. Penso que é um completo disparate o conflito que há entre estas duas disciplinas, não entendo as coisas dessa forma, para mim são muito claras, tanto a oftalmologia como a optometria são essenciais nas sociedades modernas. Respeito a opinião de todos os profissionais, mas considero que quem promove a separação da optometria da oftalmologia, ou a anulação da optometria, está pouco interessado na saúde visual dos portugueses, e estará certamente mais interessado na estratificação de classes que resulta em colocar no topo da hierarquia sempre os mesmos ramos do saber, promovendo uma sociedade confortavelmente estática, míope e bolorenta.

Entrevista retirada da revista Look Vision nº 48.

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